Careca do INSS tentou emplacar, sem sucesso, três contratos milionários com o Ministério da Saúde

Edilson Rodrigues/Agência SenadoFonte: Agência Senado.

O lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores de fraudes em aposentadorias, tentou vender ao Ministério da Saúde medicamentos de cannabis, testes rápidos de dengue e produtos de nutrição infantil.


O Careca foi recebido em reunião no ministério pelo menos uma vez, em janeiro de 2025, mas o governo não comprou esses produtos das empresas ligadas a ele.


A Operação Sem Desconto, que investiga as fraudes em aposentadorias e pensões no INSS e revelou ao público as suspeitas contra o Careca, estourou em 23 de abril de 2025. O prejuízo do esquema pode chegar a R$ 6,3 bilhões, entre 2019 e 2024.


A atuação do Careca do INSS e de seus funcionários junto ao Ministério da Saúde está registrada em mensagens de WhatsApp obtidas pela reportagem. As conversas estão sob análise da PF.


Na decisão que autorizou a fase mais recente da operação, em dezembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso, afirmou que o Ministério da Saúde era a "nova possível área de atuação da organização criminosa". Ele mandou ainda a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apurar administrativamente "eventuais irregularidades praticadas por servidores públicos".


Uma das suspeitas é que o Careca tenha usado dinheiro desviado das aposentadorias para pagar propina e estruturar empresas de sua propriedade que miravam em contratos milionários na área da saúde.


Maconha medicinal


Uma das empresas do Careca do INSS é a World Cannabis. Em 19 de dezembro de 2024, ele trocou mensagens com seus funcionários, no grupo da firma, sobre um processo de revisão da resolução nº 327 da Anvisa, que teria ficado para 2025.


Essa resolução trata da concessão de autorização sanitária para fabricação e importação de produtos de cannabis.


Swedenberger Barbosa, o Berger, era secretário-executivo do Ministério da Saúde, o número 2 da pasta. A mensagem não disse se essa reunião seria presencial ou pela internet.


Dias antes, em 13 de dezembro de 2024, os funcionários do Careca compartilharam no grupo um arquivo de texto com a minuta de um Termo de Referência (TR) que previa a compra de 1,2 milhão de frascos de canabidiol pelo Ministério da Saúde.


O documento dizia que a compra dos medicamentos seria por "dispensa de licitação" e direcionava o negócio para quatro empresas — a World Cannabis e mais três supostas parceiras.


O TR é um tipo de documento que deve ser elaborado e publicado pelo ministério. As mensagens sugerem que a intenção do lobista era entregar o texto pronto para o Ministério da Saúde.


O arquivo não trazia valores. No mercado, o preço de cada frasco de canabidiol, nas concentrações previstas, varia de R$ 400 a R$ 900. A venda para o governo não ocorreu.

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